José Calasans por Adelino Brandão PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

Professor José Calasans

Quem quer que, no Brasil nos últimos 50 anos, andou às voltas com a bibliografia sobre o folclore e a literatura oral do Nordeste, a história de Canudos, do rebelde Antonio Conselheiro, "Os sertões", de Euclides da Cunha, as pesquisas de antropologia cultural na Bahia, fatalmente terá travado contato com os livros, artigos, monografias, entrevistas do professor José Calasans, cujo falecimento ocorreu no dia 28 de maio passado, em Salvador. Fato noticiado por toda grande imprensa do País.

Historiador, biógrafo, ensaísta, pesquisador de campo, etnógrafo (folclorista), sociólogo, antropólogo social, jornalista, o professor Calasans foi o fundador de um dos mais sérios e promissores Institutos de estudo e pesquisas nacionais, centralizado especificamente na figura de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, líder da rebelião sertaneja de 1896/97, no interior da Bahia (Canudos) e na historia política, social, econômica, religiosa e cultural do nordeste, na quadra que vai da abolição e subsequente proclamação da República, até os tempos atuais. Inclusive sobre o papel que o escritor Euclides da Cunha desempenhou nos acontecimentos que o levaram ao sertão, como correspondente de guerra do jornal de Júlio de Mesquita – O Estado de São Paulo. Como se sabe, as reportagens, ao vivo feitas por Euclides, nas frentes de combate, deram origem ao seu mais célebre livro, que se tornou uma obra prima das letras universais modernas.

Se ao Brasil culto, em geral a morte do professor Calasans provocou expansões de consternação e tristeza, a mim me tocou vivamente, dadas as nossas relações acadêmicas e de amizade pessoal. Um relacionamento de meio século. Então, éramos ainda estudantes. Ele, na Bahia, eu em São Paulo. Ainda moço, tornou- se conhecido por sua tese sobre o folclore da Guerra de Canudos e do Conselheiro, e pesquisas sobre o léxico popular da cachaça. Trabalhos que o credenciaram a fazer parte da plêiade dos grandes nomes que lideravam os trabalhos de antropologia cultural, etnologia e etnografia sertaneja daquela época, no nordeste: Luis Câmara Cascudo, Theo Brandão, Veríssimo de Melo, Gustavo Barroso, Eduardo Campos, Abelardo Duarte, e outros tantos, igualmente falecidos, que deixaram escola.

Meu interesse pela mesma área das ciências humanas levaram-me a estudar suas publicações e, depois, a entrarmos em contato através de cartas. Mais tarde haveríamos de nos encontrar em vários eventos, nas mesas-redondas, ciclos de estudos, seminários, cursos etc. , promovidos pelas Universidades da Bahia e São Paulo, Casa Euclidiana de São José do Rio Pardo(SP); Academias de Letras, particularmente a da Bahia; centros de estudos de Canudos, o jornal O Estado de São Paulo etc.

Acredito que tenha em minhas estantes todos os livros e separatas, opúsculos, reportagens, etc. de sua autoria, assim como os jornais e suplementos literários da Bahia com seus artigos. Tudo enviado por ele, sempre com uma dedicatória amiga, uma correspondência, uma mensagem cheia de simpatia, interessado no trabalho dos colegas.

Desde o "Cachaça, Moça Branca" (1951), a "Euclides da Cunha nos jornais da Bahia", incluindo em apêndice no livro de Euclides da Cunha, "Diário de uma Expedição", ultima edição (Cia das Letras, São Paulo, 2000), passando por "Euclides da Cunha e Siqueira de Meneses"(1957), "No tempo de Antônio Conselheiro" (1959), "ABC de Canudos" (1969), "As Mulheres de Os Sertões" (1982), "Canudos na literatura de Cordel" (1984), "Quase biografias de Jagunços" (1986,1988), "A Guerra de Canudos na poesia popular" (1997), "Cartografia de Canudos" (1997), para citar somente os que tenho aqui a mão, que muitos mais publicou ele. Inclusive forneceu subsídios preciosos para os mestres estrangeiros que traduziram "Os sertões" ou levantaram teses sobre a guerra de 1987.

O que havia de admirável em Calasans como historiador,era a sua objetividade, com os pés em terra com bom senso, servido pela documentação sólida e o testemunho insuspeito. Deitou por terra, para sempre, as teses dos sociólogos de gabinete, empanzinados de marxismo, papagaiadores das teorias da "luta de classes". Demagogos da supertição anacrônicos e dogmáticos, que, sem nunca ter estado em Canudos e muito mal lidos, repetiam ter sido a luta dos jagunços do Conselheiro uma luta camponesa pela terra. E buscam analogias entre as ligas camponesas de Francisco Julião e as invasões dos sem-terra do José Rainha, hoje, e a rebelião dos caboclos do rio Vaza-Barris.

Ora, o que José Calasans provou foi que terra havia, e de sobra, em Canudos. Nem os fazendeiros faziam caso dela. Permitiam o apossamento por qualquer lavrador e doavam patrimônios para a construção de capelas e instalação de povoados. O que não havia, depois da abolição da escravatura, eram braços em numero suficiente para tocar as lavouras dos barões do latifúndio. E veio o Conselheiro, levando consigo toda a mão de obra livre para Canudos, onde todos esperavam ganhar o céu, diretamente. Daí a oposição dos grandes proprietários. Outro motivo, segundo Calasans, o deslocamento do prestigio e do poder das mãos dos coronéis tradicionais, para o carismático Conselheiro. Este, um grande cabo eleitoral. Em quem mandasse votar, todos votavam. Razão das disputas por seu apoio, entre as facções republicanas e monarquistas, clãs e grupos de interesses mesquinhos, da policia baiana sem nada de conotações de luta pela terra.

O professor Calasans foi vice-reitor da Universidade da Bahia, entre outras coisas fundador do Núcleo Sertão do Centro de Estudos Baianos, onde reuniu dezenas de milhares de documentos inéditos sobre os temas no qual foi mestre. Para lá acorrem estudiosos do Brasil e do mundo. Estudiosos que como nós, ficam a lamentar sua morte e se perguntam quem continuará a tarefa interrompida, neste século em que a moda é o desamor ao Brasil e sua cultura, o ódio à disciplina mental, o horror à língua nacional, a presunção de saber sem estudar, o descaso pelas conclusões com base nos fatos e a preferência pela versão mentirosa que vende e dá ibope, em lugar da verdade que não bajula, nem agrada aos mitos e nomes empavonados do dia – quem continuará pelos caminhos que abriu e deixou?...

O professor, advogado e jornalista Adelino Brandão foi um grande estudioso da obra de Euclides da Cunha e membro da Casa Euclidiana de São José do Rio Pardo(SP). Faleceu em 2004.