José Calasans por Edvaldo Boaventura PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

José Calasans

Cada um dos membros poderia expressar a saudade da Academia de Letras da Bahia ao confrade José Calazans, nesta homenagem que não é a derradeira, porque se torna contínua pela lembrança.

A Academia guarda a memória do companheiro comunicativo, atencioso e culto e do presidente prestante. O confrade de freqüência assídua que assinalava sempre a celebração do centenário da personalidade política, do escritor, do líder. Ele tinha gosto e talento de saber comemorar.

Soube desenvolver, como historiador e folclorista, uma cultura imantada na curiosidade intelectual e desenvolvida na carreira universitária, que a guardava no escrínio de uma prodigiosa memória. Cultuou a história, cultuou o folclore e cultuou os sertões euclidianos da Bahia, centrando sua temática na figura do Conselheiro. Admirava Euclides da Cunha que muitas vezes superou pela pesquisa empírica e crítica. Abastecia-se na literatura histórica e buscava na história local os últimos depoimentos da saga do Conselheiro. José Calazans e Canudos é uma associação natural. A sua contribuição intelectual expressa em inúmeros ensaios mudou a visão de Canudos porque muito acrescentou com as suas descobertas. Escreveu o livro maravilhoso sobre os sertões do Conselheiro, destacando Canudos, o fato; Euclides da Cunha, o cronista; e Conselheiro, o herói; obra publicada em diversos capítulos, escritos, contribuições e palestras.

Agrego nesta breve palavra a permanência de Sergipe. Veio para a Bahia, casou-se na Bahia, foi pai tanto em Sergipe como na Bahia, um filho em cada Estado. Recordo um delicioso ensaio Temas da província, velhas páginas sergipanas que falam do ensino normal, do cancioneiro histórico e do governador Fausto Cardoso e a rosa. Nunca deixou o seu terroir. Começou o magistério em Aracaju e ensinava pela palavra conversando como quem conta história para crianças e, assim, encantava adolescentes e adultos. Todos gostavam de ouvir Calazans Sabia conversar e entretinha na plenitude da graça de sua fantástica inteligência verbal.

Academia de Letras, Instituto Geográfico e Histórico, Universidade Federal da Bahia, Conselho Estadual de Cultura, Senac, Clube Sergipano, Museu Teixeira Leal e colégios secundários onde ensinou tiveram o privilégio de contar com um cidadão da palavra espontânea, sábia, elevada, fundamentada em longas leituras e demoradas conversações.

À palavra oral completava com a escrita . Ai está a sua obra de historiador, de escritor e sua inclinação natural para a cultura do folclore. Como era delicioso ouvi-lo repetir de cor versos, poesias inteiras, histórias ritmadas pela cadência sertaneja!

Encontramo-nos, de propósito, na reitoria da Universidade Federal para um encontro não desejado, por isso devemos revesti-lo da alegria das flores e de palavras sinceras, de altos sentimentos e de lembranças. Foi, na Faculdade de Filosofia da Ufba, onde criou tantos amigos, Magalhães Neto, Batista Neves, Luiz Henrique Dias Tavares, Saback, Ari Guimarães, Rui Simões, Waldir Freitas Oliveira e tantos alunos que montou a sua tenda. A cátedra de História e a Universidade que serviu como professor, conselheiro e vice-reitor, comparecem na palavra de Antônio Guerreiro e do reitor Heonir Rocha. Na Ufba concentrou o magistério superior, expressão da sua liderança acadêmica.

Em volta do seu corpo, reunimo-nos todos, para dizer a ele, Calazans, que somos agradecidos pela sua presença participante, pela sua lição de História, pelo canto popular que tantas vezes repetiu com graça, pela obra que produziu e, sobretudo, pela palavra que tanto construiu.

Graças a Deus tivemos mestre Calasans conosco como professor, pesquisador, confrade, colega e amigo. O abraço saudoso da Academia de Letras da Bahia envolve carinhosamente Dona Lúcia, Madalena e recorda José.

Discurso na Reitoria da Ufba em 29 maio de 2001. O educador Edvaldo Boaventura é membro da Academia de Letras da Bahia.