José Calasans por José Carlos Pinheiro PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

Mestre jamais avaro no saber

O Mestre José Calasans Brandão da Silva, baiano de adoção, nasceu em 14 de julho de 1915, no vizinho Estado de Sergipe. Concluiu o curso de Direito em 1937, pela Faculdade de Direito da Bahia, tendo em 1947 se estabelecido definitivamente em Salvador. Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia; diretor do Museu Eugênio Teixeira Leal; membro da Academia de Letras da Bahia; ilustre integrante do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e vice-reitor da Ufba no período 1980/1984, dentre outros inúmeros títulos. O mestre Calasans doou ao Centro de Estudos Baianos da Ufba o seu vasto acervo sobre a Guerra de Canudos, originando daí o Núcleo Sertão, a Meca de todos aqueles que desejam conhecer e aprofundar os estudos e pesquisas sobre o assunto.

Das inúmeras definições do significado, ou seja, da etimologia da palavra mestre, existe uma que diz que é aquele que ensina. Parece-nos a mais singela, porém, é a que melhor enuncia o saudoso José Calasans, como era mais conhecido.

Quando se tratava de Antônio Conselheiro e da Guerra de Canudos, era, além de um especialista na acepção da palavra, um referencial, autor de diversos artigos e livros, tais como No Tempo de Antônio Conselheiro; Canudos na Literatura de Cordel e Quase Biografias de Jagunços - leitura obrigatória para todos que desejam melhor conhecer, estudar e compreender a Guerra de Canudos. Professor Calasans era um homem que não guardava as informações que coletava para si, não era avaro no saber, sua enorme generosidade intelectual sugere uma fábula: o mestre que ensinava o pulo do gato aos seus discípulos. Realizava o verdadeiro papel de um educador, qual seja: difundir o que aprende; disseminar o conhecimento e socializar o saber; o que o tornava quase uma espécie em extinção, considerando que a realidade dos círculos acadêmicos é quase caracterizado por grupos fechados, panelinhas, verdadeiros guetos dominados pelo ciúme, inveja, emulação e arrivismo, sendo que o mestre Calasans estava muito distantes de tais frivolidades.

Tive o privilégio de conhecer e manter alguns contatos com José Calasans, em virtude de eu ser um pesquisador do Centro de Estudos Euclydes da Cunha/CEEC, órgão da Universidade Estadual da Bahia/UNEB, que desenvolve pesquisas sobre o semi-árido baiano, em especial, sobre Canudos. Pude aprofundar esse contato em 1997, mais precisamente entre 4 e 8 de agosto daquele ano; período em que se celebrava o centenário do final da Guerra de Canudos; quando, em companhia do historiador paulista Marco Antônio Villa, recolhemos o valioso relato do mestre Calasans, que se transformaria no livro Calasans, Um Depoimento Para a História, publicado posteriormente pelo próprio CEEC, no ano de 1998.

Transcorrido o primeiro ano do desaparecimento do mestre Calasans, permanecem a nossa gratidão e o nosso agradecimento ao intelectual brilhante e simples, que encorajou o vôo alçado por inúmeros pesquisadores em torno de um dos temas mais fascinantes e arrebatadores da historiografia brasileira, a Guerra de Canudos. Em sua memória, transcrevo duas quadras recolhidas por seu conterrâneo Sílvio Romero sobre Antônio Aparecido, uma das inúmeras alcunhas de Antônio Conselheiro:

...Do céu veio uma luz
Que Jesus Cristo mandou
Santo Antônio Aparecido
Dos castigos nos livro

Quem ouvir e não aprender
Quem souber e não ensinar
No dia do Juízo
A sua alma penará...


Texto publicado no jornal A Tarde de 25 de maio de 2002.José Carlos Pinheiro é historiador, advogado e pesquisador do Centro de Estudos Euclydes da Cunha da Universidade do Estado da Bahia.