José Calasans por José Dionísio Nobrega PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

Calasans, o Jovem Oitentão

Sergipe, embora de pequena dimensão territorial, tem sido um grande Estado exportador de talentos em todas as áreas do conhecimento humano. No campo da história e do folclore, brilharam no Rio de Janeiro, como estrelas máximas do saber, as inteligências de João Ribeiro e Felisbello Freire. Para com a Bahia, no entanto, o pequenino Sergipe tem sido ainda mais generoso. A “guia” de exportação de sergipanos ilustres é mais rica para Salvador do que para outros lugares. Se alguns vieram somente para estudar, como Jackson de Figueiredo e Manoel Bomfim, outros, entretanto, preferiram deitar raízes no solo baiano. É o caso, dentre muitos, de José Calasans Brandão da Silva. O nome José Calasans (Calasans não é sobrenome) se origina de uma homenagem ao tio-avô homônimo que nascera a 27 de agosto, em dia de São José de Calasanz (grafe-se com z final).

Na época em que era aluno do Ateneu Sergipense, de 1928 a 1932, aprendeu com Clodomir Silva a gostar das “coisas” do folclore e da história, áreas em que mais tarde se tornaria um dedicado estudioso. O desejo de ser professor surgiu logo em seguida, talvez por influência do tio Josafá Brandão, então professor de destaque da juventude aracajuana. Ano seguinte, já na Bahia, o jovem aracajuano começa a estudar na Faculdade de Direito do Portão da Piedade. Não foi um dos alunos mais brilhantes. Era comum encontrá-lo lendo Capistrano de Abreu, Joaquim Nabuco ou Gilberto Freyre. A ciência de Carnelutti, de Kelsen e de Beviláqua não o empolgava.

Nas férias de 1935, em Aracaju, o terceiranista de Direito manifesta já uma tendência literária ao escrever crônicas sobre louras e morenas e perfis políticos como os de Maynard Gomes, de Eronides de Carvalho e de Francisco Porto, publicados no Sergipe-Jornal, graças ao amigo Mozat Aboim, redator da gazeta aracajuana. O futuro professor (de diversas gerações) produz também, em versos, uma magnífica sátira política. Graças a esse gosto literário adquirido no albor da juventude é que a apresentação de seus trabalhos históricos, ensaísticos, biográficos e folclóricos chegará ao público sempre bem cuidada, numa linguagem clara e concisa, à maneira do laranjeirense João Ribeiro.

Corre o ano de 1937, no fim do qual sairá da Faculdade de Direito uma das turmas mais ilustres de todos os tempos: José Calasans, Rubem Nogueira, Jorge Calmon, Mário Cabral, Jaime de Farias Góes, Oldegar Franco Vieira, Nelson Sampaio e muitos outros. O filho recém-formado de dona Noemi Brandão da Silva e do senhor Irineu Ferreira da Silva, por algum tempo, não continuará em Salvador, quer ser professor de História, concursado, na Escola Normal “Ruy Barbosa”, em Aracaju. Intensifica então os estudos e pesquisas com este objetivo. Primeiro, publica, em 1941, na Separata da Revista do IHGS, “Os franceses e a exploração do pau-brasil, em Sergipe”, para, em seguida, em 1942 publicar a sua tese apresentada ao concurso de História do Brasil e de Sergipe – Aracaju (contribuição à história da capital de Sergipe) -, superando, com a técnica moderna de investigação e interpretação históricas, os trabalhos pioneiros sobre Aracaju de Clodomir Silva, Manoel dos Passos e Enoch Santiago. É o novo historiador de Sergipe, é o primeiro historiador de Aracaju, na opinião de Garcia Moreno.

Com a publicação de “Aspectos folclóricos da cachaça”, em 1943, o folclorista sergipano passa a ser admirado por intelectuais de todo o Brasil. De Gilberto Freyre nem se fala, já eram bons amigos. Mário de Andrade se refere a ele como um dos que se preocuparam com a dicionarização dos eufemismos da cachaça, ao lado de Aberto Bessa, em Portugal, de Rodolfo Garcia e de Firmino Costa, no Brasil, Pedro Calmon, ao ocupar-se de coisas baianas na Academia Brasileira de Letras, considera excelente o estudo folclórico da cachaça. Ao tratar deste tema, o futuro autor de “O ciclo folclórico do bom Jesus conselheiro” não é contra nem a favor do consumo de bebida alcoólica. É possível que nunca tenha tomado um “golpe” da branquinha, como diria o sertanejo, porque ela é, antes de tudo, forte:

Cachaça, moça branca
Fia do veio Tiburço
Ela bate comigo no chão
Eu bato com ela no bucho
Cachaça fia da cana
Neta do véio Paixão
Eu meto ela no bucho
Ela me mete no chão.

Não foi o livro “Os sertões” que lhe mostrou a porta de entrada ao mundo fantástico de Antônio Conselheiro. O gosto pelo folclore é que o fez querer conhecer a história do famoso peregrino. A mais prima das obras brasileiras – insuperável do ponto de vista literário – até então não tinha sido objeto de um sério estudo crítico do ponto de vista histórico. Era uma obra considerada inatacável. Hoje, a obra definitiva sobre a guerra sertaneja e seu líder ainda está por se escrever. Para tal empreitada, quem reúne as melhores condições, cognitivas e intelectuais, além da paixão pelo tema, é o professor José Calasans, a quem não falta experiência, pois já se vão 45 anos de intensa pesquisa sobre o movimento de Antônio Conselheiro.

Se 14 de julho significa para a França o início de um novo tempo ou o fim de uma monarquia absoluta onde a vontade do rei, e só ela, era a lei, o rei somente tinha de prestar contas a Deus, para os baianos, amigos do estimado mestre sergipano, que nesta data histórica completa 80 anos, representa mais uma oportunidade para enaltecer-lhe os méritos e as qualidades, além de reconhecer nele um ser humano especial que a Bahia teve a sorte de adotar como filho.

José Dionísio da Nóbrega é bacharel em Administração, escritor e estudioso da Guerra de Canudos. É membro do Instituto Genealógico da Bahia.