José Calasans por Luitgarde Oliveira Barrros PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

Professor Calasans

Parcimonioso escrevendo, desperdiçador na oralidade, doava até o inesgotável, guiando, oferecendo inestimável acervo de fontes a quem quisesse conhecer o povo sertanejo, suas falas e crenças, enfim sua alma.

Poucos intelectuais conseguem marcar tanto seus contemporâneos, aqueles que tiveram “a graça” de conviver com a generosidade de seu olhar de compreensão, do riso carinhoso, da alegria de suas palestras num fio se desenrolando por horas a fio, sem que nos sentíssemos saciados do prazer de sorver suas memórias.

Antes do surgimento da disciplina História Oral, Calasans foi um dos instituidores, seguindo Nina Rodrigues, Arthur Ramos e Manoel Querino, da oralidade como documento, da memória social como instrumento de valor inestimável para a História do Brasil, país elitista que negou por séculos, ao trabalhador braçal, os benefícios da escrita. Em meados do século XX, adentrou a Universidade da Bahia trazendo seus pares – o séquito de Antonio Conselheiro. Apresentou cada jagunço, seus risos, crenças, cantos e lutas, aos estudiosos do mundo inteiro que o procuraram ou leram seus trabalhos, até que, no inicio desse século de terror, em maio de 2001, foi caminhar com o Peregrino nas estradas do sertão.

Na minha frente uma coleção de postais com fotografia da estátua do Conselheiro com seu bordão, amarelo em fundo azul, de autoria de Madalena Calasans, traz na dedicatória a mansa força de sua fé, que nos juntou por tanto tempo, a todos que os seguíamos:

Beata Luitgarde – com as bênçãos do Pai Conselheiro
E os abraços afetuosos do conselheirista Calasans

Onde estivéssemos, qualquer um de seus seguidores, atenderíamos a essa invocação, carinho de amigo, anúncio de consolação. Porque estudar Canudos, conhecer aquela história e seu arauto Calasans, era um consolo para tanta miséria neste mundo do individualismo pós-moderno.

A parcimônia na escrita do professor Calasans era resultado de uma carpintaria literária que o levou à maestria de soprar fé, entusiasmo e grandeza de sentimentos em cada expressão ortografada de forma tão esmerada, que seus textos sucintos dizem com energia pulsante toda sua generosa compreensão do mundo e sua vontade de homenagear o bem, de proclamar os homens que o semearam na terra. Sua prosa é canto, porque só o poeta tem o poder de, cantando, presentificar sua própria memória, oferecendo-a como uma dádiva a quem não viveu suas experiências de mergulho no sentimento dos homens sofridos.

Não sendo biologicamente descendente do povo de Canudos, Calasans foi, por mais de cinquenta anos seu porta voz, alardeando sua oralidade, vivendo aquele clamor de justiça do grito do povo do Conselheiro. Sua vida foi um esculpir de imagens, um ressuscitar de vozes dos condenados ao silêncio segundo o veredicto dos vencedores. Modestamente se disse escrevendo uma Quase Biografias de Jagunços.

Imune à competição, partilhava a paixão da pesquisa da cultura popular com o mais renomado ou obscuro estudioso desse tema, pedindo informações com a candura do generoso distribuidor do mais rico acervo de fontes e dados sobre a sertanejidade nordestina. Emblemática de seu estilo epistolar (perfil humano), transcrevo uma sua carta a Arthur Ramos, enviada de Aracaju em 12 de fevereiro de 1942:

Ilustre professor Ramos
Junto remeto ao ilustre mestre umas notas que publiquei sobre o
folclore do açúcar em Sergipe e, aproveitando a oportunidade, lembro a
promessa que o senhor me fez de enviar algumas instruções para
pesquisas sociais em Sergipe. Em fim de novembro, mandei ao Sr. um
trabalho do prof. Clodomir Silva sobre folclore regional e uma fotografia
do quadro que se encontra no Instituto Histórico e sobre o qual
conversamos, quando tive a honra de conhecê-lo pessoalmente.
Recebeu-os? Caso se tenham extraviado, terei grande satisfação em
mandar outro volume, como também uma nova cópia fotográfica.
Aguardando suas prezadas ordens, firme-se o admirador e discípulo
Calazans.

Assim era Calasans: Ainda jovem, intelectual provinciano, canta a alegria de ter conhecido o então famoso antropólogo da Universidade do Brasil. Envia-lhe com naturalidade sua própria produção de pesquisador, enquanto já põe Ramos em contato com outro estudioso. Nem vaidade, nem egoísmo, só uma vontade imensa de partilhar saberes, de tecer redes de pesquisa, num tempo em que isto não rendia financiamentos, mas só o prazer do bem fazer, do socializar descobertas, do transmitir para além fronteiras o falar, o saber do povo em suas manifestações mais genuínas, de história trágica permeada pelo lúdico de adoradores da força divina desenhando a beleza do Sertão.

O tempo o fez viver em tantos mundos de gerações competitivas, de agências de fomento à pesquisa, de marketing e toda gama de vaidades humanas e desumanas, sem que nada disso pesasse em sua alma jovem e generosa que guiava e celebrava a chegada de novo conselheirista, ensinando a todos a felicidade de poder partilhar a dignidade, a crença no homem e a fé dos seguidores do Conselheiro. Não tendo força poética para transmitir na escrita o que é o professor Calasans, e transmitir sua imagem que me enche de saudade, peço-lhe vênia para usar suas palavras mágicas quando fala sobre Odorico Tavares:

José Calasans, sergipano, sentimentalmente identificado com
a Bahia, cidadão de Salvador e de Canudos, membro da Academia
de Letras da Bahia, foi presença efetiva e afetiva na vida regional.
É um dos brasileiros-baianos de maior relevância.

Texto publicado no jornal A Tarde de 25 de maio de 2002.Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros é professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autora do livro Na Terra da Mãe de Deus.