José Calasans por Oleone Coelho Fonte PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

Mestre Calasans recebido no céu

A imagem primeira do professor José Calasans me veio no começo de 1967. Fizera eu exame vestibular para o curso de História, na Ufba, e, naquele dia, fora saber o resultado. Rotunda corporatura acercou-se, disse, após compulsar numas laudas, relação de aprovados: "Você passou em primeiro lugar, rapaz!"

José Calasans Brandão da Silva era professor de História Econômica do Brasil e, durante um ano, eu assistiria às suas aulas. Não só, porém, à evolução econômica referia-se o pedagogo que está semana encantou-se, senão também discorria, com igual fluência e sabedoria, a respeito de Canudos, Coluna Prestes, cangaço, messianismo, histórias de trancoso.

Foi naquele período que tive minha curiosidade despertada para leitura do drama sangrento ocorrido na Bahia, no último decênio do século XIX. Posteriormente, canudo de papel entalado no sovaco, principiei a pesquisa de campo, primórdios que estão vinculados a viagem que fiz, na companhia do poeta Antônio Short (1947-1993), a Euclides da Cunha e Monte Santo. Pela primeira vez, respirava atmosfera impregnada de misticismo messiânico em chão de visionários e lunáticos. É dessa época - 1979 - a visita ao Museu da Guerra de Canudos, instalado em Bendegó, fundados ambos (museu e povoado) pelo eremita e sobrenatural José Aras. Em meus arquivos, há foto na qual manuseio a Missão Abreviada, obra que, segundo o museólogo Aras, fora o breviário de Antônio Conselheiro.

Do mesmo período, é a jornada a Quixeramobim, Ceará, ocasião em que conversei com descendentes de Antônio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), o maior pescador de homens no Brasil no século XIX.

Formado em História, 1970, tomei meu rumo. Não perdi, contudo, de vista o mestre canudômano, a quem, de quando em vez, visitava e consultava.

Fizemos, juntos, memorável viagem aos sertões. Nélson de Araújo e Alberto Jorge Franco Timóteo nos acompanharam. Na capital de bodes e pirilampos, fomos acolhidos de modo fidalgo pelo coronel Jerônimo Ribeiro. De Uauá, marchamos para Chorrochó, graças a viatura, posta à nossa disposição pelo prefeito Zé Papagaio. O mestre ia feliz, afinal, brevemente, conheceria templo erguido em 1885 por seu ídolo. Até os sapos de Chorrochó, aos pulinhos, saudaram festivamente o estudioso. Longamente, o professor Calasans conferenciou com Doroteu Pacheco sobre a passagem por terras chorrochoenses do sombrio e intransigente asceta. Nélson de Araújo inquiria sobre folclore. Guardo do canudófilo foto no adro da igreja, envolvido em pensamentos, olhos fixos na fachada, viajando no espaço e no tempo.

De avião, fomos posteriormente a Canudos, para as comemorações do centenário da fundação do Belo Monte, 1996. Conosco, o teólogo e estudioso Alexandre Otten, autor do extraordinário ensaio "Só Deus é Grande". Naquele mesmo ano, estivemos em Crisópolis e, na volta, pernoitamos na casa de Renato Ferraz, em Esplanada. Em 1997, fui com o pedagogo a Queimadas e Juazeiro.

Fantasio mestre Calasans chegando ao céu, recebido, com festa, por São Pedro que manda entrar em fila, para os cumprimentos: Marciano de Sergipe, José Felix, o Taramela, Antônio Beatinho, a velha Benta, João Abade, Pajeú, José Venâncio, Pedrão, Barnabé José de Carvalho, Norberto das Baixas, Leão de Natuba... toda a jagunçada. E aquele velhinho que irrompe das sombras, de cajado na mão, vem cumprimentá-lo, quem é? Claro, o Conselheiro, que diz: Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!. O mestre responde: Para sempre seja Louvado tão bom Senhor que morreu na Cruz por nosso amor!

Texto publicado no jornal A Tarde de 2 de junho de 2001.Oleone Coelho Fontes é historiador e escritor.