José Calasans por Roberto Ventura PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

Guardião da memória do Conselheiro

Eu gosto muito de conversar. Assim falava de si mesmo o historiador sergipano José Calasans, maior conhecedor da história de Canudos, a comunidade religiosa criada em 1893 por Antônio Conselheiro, às margens do rio Vaza-Barris, no sertão da Bahia. O povoado foi destruído pelas tropas do Exército em outubro de 1897, depois de quase um ano de guerra. Canudos foi incorporado à memória do país com o livro de Euclides da Cunha, Os sertões, cujo centenário transcorre este ano.

Morto em 28 de maio de 2001, aos 85 anos, em sua residência na Ladeira da Barra em Salvador, o grande conversador José Calasans Brandão da Silva era dotado de prodigiosa memória e vasta erudição, que o tornaram fonte de consulta obrigatória para todos aqueles que se interessam por Canudos ou por Euclides. Recebia todos com entusiasmo e não escondia dos interlocutores a simpatia que tinha pelo Conselheiro. Chegava a dizer, com humor, que era conselheirista. Sua paixão em contar e ouvir histórias fez dele a memória viva de Canudos.

Tornou-se o elo entre os pesquisadores mais jovens e os sobreviventes e descendentes do Belo Monte, cujos depoimentos começou a recolher no final da década de 1940. Seu último livro, Cartografia de Canudos (Secretaria de Cultura e Turismo da Bahia), foi publicado em 1997, no centenário do término da guerra, reunindo muitos de seus artigos e folhetos.

A vontade de compartilhar o que sabia levou-o a doar, em 1983, toda a documentação que juntara sobre Canudos à Universidade Federal da Bahia, da qual foi professor de história moderna e contemporânea e também vice-reitor. Sua biblioteca, que integra o Núcleo Sertão do Centro de Estudos Baianos, se tornou centro de referência para os estudos sobre Canudos e contém, entre outras preciosidades, um dos dois cadernos manuscritos, até hoje inédito, com rezas e pregações, que o Conselheiro deixou como testamento religioso.

Calasans se interessou pela história da comunidade a partir das reportagens que Odorico Tavares fez, com belas fotos de Pierre Verger, para a revista O Cruzeiro em 1947, nos 50 anos de sua destruição. Contou ao historiador Marco Villa, em Calasans, um Depoimento para a História (Centro de Estudos Euclydes da cunha, 1998), que as reportagens lhe revelaram a existência de muitos sobreviventes da guerra e o fizeram dar à coleta de depoimentos e de poemas populares.

Conheceu e conversou com seguidores do Conselheiro, como Manoel Ciriaco, nascido em Canudos; Honório Vilanova, irmão do maior comerciante da região; Francisca Macambira, filha de outro comerciante; Pedrão de Várzea da Ema, um dos chefes armados, depois contratado, na década de 1930, para combater o bando de Lampião. Seu esforço em resgatar a versão dos habitantes do sertão, vencidos na guerra, foi acompanhado por Nertan Macedo, que entrevistou Honório em Memorial de Vilanova (1964), e por José Aras, que registro alguns testemunhos e poemas em Sangue de Irmãos.

Calasans aliou, de forma inovadora, a história oral à pesquisa rigorosa dos manuscritos e documentos. Fez de Canudos não apenas uma história a ser resgatada, mas antes um "mar de histórias", contadas segundo diversas perspectivas. Deu aos relatos orais e populares a mesma importância que atribuía às interpretações impressas ou eruditas. Aproximou-se, no destaque dado à oralidade, de Gilberto Freyre, que abordou, em Casa-Grande & Senzala (1933), a formação patriarcal da sociedade brasileira e retratou, em Ordem e Progresso (1959), a transição da Monarquia para a República a partir de depoimentos e testemunhos.

A história do Belo Monte, tal como contada por Calasans, é diferente daquela apresentada por Euclides da Cunha, que criou, em Os sertões, um retrato sombrio do Conselheiro como fanático místico e louco, personagem trágico guiado por forças obscuras, que o levaram ao conflito com a Igreja e o governo. Segundo Calasans, surgiu, a partir dos anos 50, um Canudos "não euclidiano", com base nos relatos dos sobreviventes e na revisão dos documentos sobre a guerra. O advogado e escritor paulista Ataliba Nogueira contribuiu para tal virada, ao divulgar e comentar, em 1974, parte dos escritos do líder da comunidade em Antônio Conselheiro e Canudos (Editora Nacional, 1974; Atlas, 1997).

Sem julgamentos depreciativos, Calasans recriou a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido em 1830, filho de um comerciante de Quixeramobim, no interior do Ceará, que se tornou conhecido como o Conselheiro. Investigou sua formação escolar, o fracasso no comércio e no casamento, a atuação junto ao padre Ibiapina no Ceará. abordou os escritos de Antônio Maciel, que revelam um sertanejo letrado, capaz de exprimir concepções e religiosas ligadas a um catolicismo tradicional, comum na Igreja do século XIX.

Em O Ciclo Folclórico do Bom Jesus Conselheiro, sua tese de livre docência de 1950, Calasans se voltou para os aspectos lendários e fabulosos do guia espiritual do Belo Monte, que a tradição popular identificava a Santo Antônio. Recolheu, em No Tempo de Antônio Conselheiro (1959) e em Canudos na Literatura de Cordel (Ática, 1984), o cancioneiro sobre Canudos, com algumas versões favoráveis e outras contrárias ao Conselheiro, que ora aparece como enviado de Cristo, encarregado de salvar as almas antes do Juízo Final, ora como bandido cruel cruel, capaz de matar a mãe e a mulher, segundo lenda propagada nos sertões, que provocou sua prisão em 1876. A guerra de Canudos é apresentada na poesia popular sob a ótica mística dos seguidores do Conselheiro, que a concebiam como uma série de sucessos milagrosos, que terminariam com a ida do pregador aos céus, de onde retornaria para liquidar os infiéis.

Outro personagem lendário na poesia popular da época foi o coronel Moreira César, comandante da 3ª expedição contra Canudos, que os sertanejos apelidaram de "corta-cabeças" ou "corta-pescoço", devido à fama de violento e sanguinário, que ganhara ao fuzilar prisioneiros, em Santa Catarina, durante a Revolução Federalista em 1894. Os poetas do sertão consideravam o coronel a encarnação do Anticristo, personagem do Apocalipse bíblico, que deverá vir antes do fim do mundo, para trazer todo tipo de desgraça - guerras, secas, fome e peste - até ser vencido por Jesus.

Diversos boatos se espalharam sobre a morte de Moreira César, como mostra o historiador Oleone Coelho Fontes, em O Treme-Terra: Moreira César, a República e Canudos (Vozes, 1995). Atingido por uma bala logo no primeiro ataque à comunidade, em 3 de março de 1897, dizia-se que tinha sido mandado matar pelo governador da Bahia, ou que fora assassinado por um soldado em busca de vingança...

José Calasans se debruçou, em Quase Biografias de Jagunços (1986), sobre figuras quase esquecidas do passado e recriou o cotidiano de Canudos a partir das histórias de vida de seus habitantes, vindos de diversas regiões da Bahia, Sergipe e Ceará. Fez reviver os beatos do Belo Monte, seus comerciantes e proprietários, os chefes militares e combatentes, seus agricultores, artesãos e professores, e até Ludgero Prestes, o "jaguncinho" de Euclides. Menino de Canudos, Ludgero foi entregue pelo general Artur Oscar, comandante da 4ª expedição, ao correspondente de O Estado de São Paulo. Criado em São Paulo por Gabriel Prestes, diretor da Escola Normal e colaborador do Estado, Ludgero se formou professor de escola complementar em 1908, sendo parabenizado por Euclides em carta incluída por Walnice Nogueira Galvão na Correspondência de Euclides da Cunha (Edusp, 1997).

Canudos foi destruído duas vezes, uma pelo fogo em 1897, e outra pela água em 1968. Com o término da guerra, o povoado foi queimado com tochas de querosene e bombas de dinamite, sendo reduzido a cinzas. Sobre tais escombros ergueu-se outro Canudos, que iria submergir sob as águas do açude de Cocorobó, completado em 1968. Nos períodos de seca, as ruínas das duas igrejas e do cruzeiro ressurgem do imenso lago como fantasma de um passado já muito distante. Mas Belo Monte continua vivo na obra e na biblioteca do historiador José Calasans Brandão da Silva. Conversador e conselheirista, assinava seus artigos e livros como José Calasans, nome de guerra, com o qual se integrou às tropas do Conselheiro e à história de Canudos.

Texto publicado no jornal A Tarde de 25 de maio de 2002.Roberto Ventura era professor de teoria literária e literatura comparada da Universidade de São Paulo. Faleceu em 2002.