José Calasans por Waldir Freitas de Oliveira PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

José Calasans:
50 anos dedicados à Historiografia e ao Folclore

Em 1942, quando cursava a 4ª série ginasial no Instituto Baiano de Ensino, do saudoso Professor Hugo Baltazar da Silveira, não sabia quem era José Calasans. Ele acabara,no entanto, de estrear no mundo das letras, com a publicação da tese com que concorreu, com êxito, à cátedra de História do Brasil e de Sergipe, na Escola Normal Rui Barbosa, na capital sergipana. Seu trabalho intitulava-se Aracaju – Contribuição à história da capital de Sergipe

Hoje, cinquenta anos depois, orgulho-me por conhecê-lo desde 1950, tê-lo tido como professor, por dois anos, em 1953 e 54, na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, poder considerá-lo um dos meus melhores amigos, e, finalmente, tratá-lo, com todo o merecimento, como "Mestre", qualificação que reservo somente para três pessoas.

Não sei, exatamente, quanto lhe devo; só sei que muito. Muito mesmo, tomando por base uma afeição sincera, as palavras de carinho e estímulo que sempre dirigiu o interesse com que vem acompanhando minha trajetória de vida profissional sem me proporcionar elogios fáceis, apresentando-os discretos, porém repletos de uma avaliação conscienciosa que me lisonjeia.

Ao completar 50 anos de atividade literária intensa e ininterrupta, documentada por numerosas publicações de livros e artigos, imagino que bem poucas pessoas poderão vangloriar-se de igual efeito. Principalmente, por haver o Mestre Calasans atravessado todo este tempo aprimorando, a cada um dos seus trabalhos, suas qualidades de escritor de linguagem elegante e escorreita, folclorista e historiador de extrema seriedade, singularmente, com duas "pátrias" – Sergipe e Bahia: Sergipe, sua terra natal, Bahia, também sua terra, não por adoção, mas por integração – uma integração que ocorreu com o passar dos anos, pouco a pouco, de modo insensível, de tal forma que hoje é difícil não considerá-lo tão baiano quanto sergipano. Que me perdoem, então, os meus queridos amigos de Sergipe, mas ousarei dizer, neste instante, que José Calasans é baiano também.

Acompanhá-lo em seu caminho através do mundo das letras não é fácil, tal a quantidade de seus escritos. Ele escreveu muito até agora; e por certo continuará a fazê-lo. Infelizmente, porém, como ele próprio confessou em recente entrevista concedida a A Tarde, "menos do que deveria". Lamento tal fato, pelo muito que perdemos todos nós, seus amigos e admiradores; e mais que nós, as gerações mais novas, que não podem aproveitar grande parte da sua sabedoria; o que não aconteceria se ao menos um pouco do que diz em conversas e papos viesse a ser publicado. Mas é ele próprio quem diz -"Gosto é de conversar"; e papeando se revela um causeur excepcional, utilizando, com habilidade extrema e oportuna, uma linguagem de encanto, cheia de tiradas humorísticas, versinhos pra lá, versinhos pra cá, quadrinhas e rimas, tudo isto ao lado de informações preciosas sobre faros e personagens da nossa História, particularmente a da Bahia e de Sergipe, dando-nos a impressão de haver lido tudo o que se publicou sobre elas, tão grande é o conhecimento que demonstra possuir sobre o assunto.

Por volta de 1950, em fevereiro ou março, de modo inesperado, o conheci. Visitando um parente querido, de um certo modo, seu contraparente, o engenheiro Oswaldo Augusto da Silva, que morava em bela casa construída em estilo moderno para a época, no Largo de Amaralina, com a figura de uma sereia construída em arames de aço, fixada numa das suas paredes externas, casa, hoje, infelizmente, desaparecida, eu o encontrei, com um livro em mãos, sentado numa rede. Os jornais daquele tempo vinham falando das pesquisas que escava realizando sobre Antônio Conselheiro e Canudos; também o folclore de cachaça.

Anunciavam, então, próximas publicações do autor sobre esses temas. Quanto a mim, iria cursar, naquele ano, a última série do curso de direito; e me encontrava apavorado ante a perspectiva da chegada do dia fatídico da formatura, a partir de quando seria, inexoravelmente, lançado ao interior de um mundo que não me atraía -o da advocacia. Ingressara na Faculdade de Direito sem vocação para a carreira, numa época em que o leque de opções para os jovens que quisessem seguir um curso superior era muito. estreito -medicina, engenharia ou direito.

Falamos pouco depois de ter sido apresentado – o bastante, no entanto, para eu ficar convencido de que o meu caminho deveria ser igual ao dele.

Ouvira dizer sobre o que fazia; que me parecia sedutor. Ele pesquisava e escrevia sobre assuntos que nem de longe se pareciam com a literatura jurídica que eu fora forçado a consultar e ler, com muito esforço, durante cinco anos seguidos - ele trabalhava sobre temas,que sempre me haviam atraído -o folclore e a História. Senti-me honrado com a atenção que me deu. Só que o Mestre Calasans nunca soube o quanto foi para mim importante aquele nosso encontro. Decidira, naquele instante, seguir o seu exemplo tornar-me, também, um escritor tratando de assuntos ligados ao povo, na expressão mais pura deste termo.

No ano seguinte ao em que o conheci, tive a oportunidade de vê-lo enfrentando, no salão nobre da Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia, aqui defronte ao prédio desta Academia, uma banca examinadora de grande expressão e conceito, composta pelos Professores Américo Jacobina Lacombe e Hélio Viana, chegados do Rio de Janeiro para o arguirem, e dos Professores Antonio de Oliveira Dias e Frederico Edelweiss, estes da Universidade da Bahia. Defendia José Calasans, nessa ocasião, tese de livre-docência em História do Brasil, intitulada. O ciclo folclórico do Bom Jesus Conselheiro. Foi aquele espetáculo de erudição e muita presença de espírito, para mim, decisivo. Tomei a deliberação, já formado em direito, de ingressar na Faculdade de Filosofia, como aluno, através do exame vestibular de janeiro de 1952. Entre as recordações que guardo daquela defesa de tese, uma se fixou, de modo mais forre, em minha lembrança - a atitude de José Calasans, após a arguição que lhe fez Frederico Edelweiss, a última, se não me engano, declarando, de modo enfático, sentir-se tranquilo ao perceber que poderia respondê-la, depois de havê-la esperado, com ansiedade, dado o respeito que lhe inspirava o nosso saudoso Professor de língua tupi, tanto quanto por sua capacidade fina de ironia. O final do concurso foi uma festa da qual participei, satisfeito com o êxito alcançado por José Calasans.

Naquele mesmo ano de 1951, comprei, logo que surgiu nas livrarias, editado pela Progresso, do saudoso companheiro Pinto de Aguiar, seu livro Cachaça moça branca, com bela capa em branco, - amarelo e preto, desenhada por Carybé, e deliciei-me com a sua leitura. Três anos depois tive a alegria de encontrar no Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, a informação de ser aquele trabalho o mais completo, que até então surgira no país, sobre o folclore da cachaça.

Em 1954 tive a ventura de tê-lo como meu professor de História da América. Eu cursava, então, Geografia e História, na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia. Foi aquele o ano em que se suicidou Getúlio Vargas, a 24 de agosto. E na primeira aula que tivemos após a tragédia que abalara o país, chegou Calasans à sala com dois novos ensinamentos o primeiro, o de devermos temer o dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu - é que nesse dia, explicava, o demônio que fica preso, o ano inteiro, sob o pé do santo, se liberta, pois São Bartolomeu vai, ele também, comemorar sua festa, deixando-o solto: podendo, então, esperar-se de tudo nesse dia, enquanto o diabo estiver livra da vigilância do santo; o segundo, o de podermos comparar o que acontecera a Vargas com faro ocorrido, em quase idênticas condições, no Chile, em setembro de 1891, com o presidente daquele país -José Manuel Ba1maceda. Ele também se suicidara, com um tiro de revólver, depois de "-haver escrito uma carta que transformara, desde então, em seu testamento político. Era assim e continua sendo o Mestre Calasans sempre trazendo a informação certa e precisa na hora em que dela houver necessidade, pronto a transmitir a alguém tudo que sabe. ..

Durante aquele ano de 1954, tive a oportunidade de ouvi-lo falar muito, instigado pelo menor pretexto, sempre entusiasmado, sobre Canudos, o Conselheiro, Euclides da Cunha e Os Sertões. Dizia aos seus alunos, nessa época, que estava a escrever um livro a respeito da obra maior de Euclides da Cunha. Tinha, porém, o receio de concorrer para a desmistificação tanto do autor como do livro. Hesitava, por isso, em prosseguir, de tal modo Euclides da Cunha e Os sertões já se haviam tornado, em seu mundo pessoal, coisas sagradas, quase intocáveis. Impressionava-nos, então, o quanto havia ele recolhido de informações a respeito de tudo que se relacionasse com a Guerra de Canudos. E se a sua defesa de tese antes me empolgara, sentia-me, como seu aluno, cada vez mais seduzido por aquela figura de homem simples com um saber tão grande; e persistia a minha decisão de tomá-lo como exemplo para a vida de intelectual que pretendia construir.

Foi, aliás, José Calasans quem me deu a primeira oportunidade de ingressar, como professor, na rede dos estabelecimentos de ensino privados desta cidade. Indicado por ele, comecei a ensinar geografia, em 1957, no curso clássico do Colégio Antônio Vieira, em um tempo quando, ele também, ali ensinava História do Brasil. Naquele ano, ele me ofereceu e me encheu de orgulho com isso, um livro de sua autoria - A Santidade de Jaguaribe - com dedicatória na qual me chamava de "prezado colega”. De aluno a colega, eu dera um largo passo. Logo após fui de novo, por ele presenteado com outra publicação – Euclides da Cunha e Siqueira de Menezes. Na dedicatória, tratava-me de “amigo”.

Dois anos depois, novamente colegas. Desta vez, na própria faculdade de Filosofia, da qual passara a integrar o corpo docente, na área de geografia; e, um pouco mais tarde, talvez naquele mesmo ano, ingressaríamos como professores, ele de História Econômica, eu, de Geografia Econômica, na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade, já então Federal da Bahia.

Em 1960 eu o vi brilhar pela segunda vez, frente a uma banca examinadora, em novo concurso a que concorreu, em nossa velha Faculdade de Filosofia. Disputava, então a cátedra de História Moderna e contemporânea, com sua tese Os vintistas e a regenaração econômica de Portugal, havendo sido aprovado com excelentes notas conferidas pelos seus examinadores, entre os quais se encontravam Jorge Calmon e o nosso saudoso Godofredo Filho.

Entre 1960 e 1972 estivemos um tanto afastados. Eu passara a exercer a direção do Centro de Estudos Afro-Orientais, ali havendo permanecido por doze anos; e com a Reforma Universitária, o Curso de Geografia, já separado do de História, fora integrar a nova estrutura do recém-criado Instituto de Geociências, no bairro da Federação. Durante este tempo, contudo, nunca se esqueceu o Mestre Calasans do seu antigo aluno, enviando-me sempre suas publicações, com dedicatórias afetuosas. E foi assim que me chegaram às mãos, em 1969, Notícias de Antônio Conselheiro, Juarez Távora na Bahia, editados pelo Centro de Estudos Baianos, O ABC de Canudos compondo o n° 3 dos "Cadernos Antônio Viana", edição da Comissão Baiana de Folclore; e, em 1970, publicado pela Universidade Federal da Bahia, em sua série "Estudos Baianos", Folclore geo-históríco da Bahia e seu Recôncavo e uma curta biografia de Fausto Cardoso.

A partir de 1972, um novo reencontro. Afastado da direção do Centro de Estudos Afro-Orientais, integrei-me, a partir de então, ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia. Retomei, na ocasião, com o Mestre Calasans, antigos papos e continuei a dele receber conselhos e os trabalhos que ia publicando - em 1976, Clodomir Silva e o Folclore sergipano, integrando os "Cadernos Antônio Viana” n° 4 em 1980, A Revolução de 1930 na Bahia e Edison Carneiro e o folclore baiano, edição do Centro de Estudos Afro-Orientais; em 1982, Subsídios à história das capelas de Monte Santo.

Enquanto isto ia lendo e colecionando os artigos que publicava, tanto nos jornais da cidade como na Revista de Cultura da Bahia e em Universitas, da Universidade Federal da Bahia. Foi assim que guardei os depoimentos prestados a A Tarde sobre os jagunços de Antônio Conselheiro, em 1982, tempo em que exercia José Calasans a função de vice-reitor da Universidade, na gestão do reitor Luiz Fernando Macedo Costa, reunidos, em 1986, pelo Centro de Estudos Baianos e por ele editados, com o título Quase biografias de jagunços. Naquela ocasião, num gesto amplo de magnanimidade, doou Calasans sua biblioteca e seus arquivos sobre Canudos ao referido Centro de Estudos, onde passou esse importante acervo, o mais completo existente no país sobre o tema, a constituir o Núcleo Sertão.

Em 1984, resgatando uma dívida antiga para com o escritor, decidiu a Editora Ática colocar em circulação nacional seu livro Canudos na literatura de cordel. Enquanto isto, continuou José Calasans a publicar sobre o tema. A Revista da Academia de Letras da Bahia, instituição da qual participa desde 1963 e da qual já foi presidente, em seu número 34, referente a janeiro de 1987, traz um substancioso artigo de sua autoria, sob o título "Canudos origem e desenvolvimento de um arraial messiânico”; a de n° 35, referente a setembro de 1988, um outro, intitulado "Aparecimento e prisão de um Messias"; e a de n° 37, referente a março de 1991, o artigo "Antônio Vicente no Ceará".

Neste ano de 1992, pronunciou, em agosto, nesta mesma Academia, importante palestra sobre a passagem de Euclides da Cunha pela Bahia; devendo participar, no próximo mês de novembro, da série de conferências programadas pela Academia de Letras e pelo Centro de Estudos Baianos em comemoração ao 900 aniversário da primeira edição de Os sertões.

Não se detém, contudo, José Calasans. E já anuncia estar a preparar, para lançamento no ano vindouro, quando se completarão 100 anos da chegada, à Bahia, de Antônio Conselheiro, de um Dicionário sobre a Guerra de Canudos. Sendo importante frisar o fato de não se repetir o Mestre Calasans em qualquer das suas publicações, havendo sempre algo novo em tudo o que publica, surpreendendo sempre os seus leitores com a novidade das informações.

Em 1991, fugindo dos temas aos quais se dedicou por toda a vida - Canudos, o folclore baiano e sergipano, Euclides da Cunha e, logicamente, Os Sertões -, publicou José Calasans Miguel Calmon Sobrinho e sua época. Para escrevê-lo, efetuou, por vários anos, cuidadosas pesquisas em documentos, especialmente os constantes dos arquivos do Banco Econômico e os pessoais da família do biografado. O livro é de valor inestimável para todos os baianos e em particular, todos aqueles que pretendiam estudar Bahia deste século ora a findar-se, pois a maior parte das informações e apreciações nele contidas se referem ao período de vida de Miguel Calmon Sobrinho -1912 a 1967. Além do historiador consagrado e do folclorista emérito, revelou-se, então, José Calasans um biógrafo de valor, característica que já deixara se presumisse com seu Fausto Cardoso e nos trabalhos que escreveu sobre o Conselheiro e seus jagunços. Talento polimorfo, assim aparece, sem exageros de apreciação, nosso homenageado.

Após haver se aposentado do cargo de professor titular da Universidade Federal da Bahia, passou José Calasans a chefiar o departamento de pesquisas e atividades públicas do Memorial do Banco Econômico, aonde vem realizando um magnífico trabalho. Foi, antes, presidente do Instituto Histórico de Sergipe, da Academia de Letras da Bahia, do Conselho Estadual de Cultura da Bahia, do Instituto Genealógico da Bahia, vice-presidente do nosso Instituto Geográfico e Histórico, além de haver sido, como já assinalamos vice-reitor da UFBA. Sua vida de pesquisador e historiador, pela seriedade do seu trabalho, pelo seu esforço contínuo em procurar a verdade por vezes encontrada em pedaços esparsos, na memória e documentos do passado, pelo seu empenho em aclarar, ao máximo, questões históricas ainda confusas, constitui um exemplo a ser seguido. Em tudo o que faz demonstra o Mestre qualidades raras. Seus conterrâneos sergipanos o homenagearam, este ano, pela passagem do 50º aniversário de suas atividades literárias, com a edição de um livro intitulado Aracaju e outros temas sergipanos, no qual foram reunidos sua primeira publicação: - Aracaju: Contribuição à história da capital de Sergipe, de 1942. Introdução ao estudo da historiografia sergipana trabalho de 1973, e outros escritos. Não fizemos, na Bahia, como talvez devêssemos, coisa semelhante.

Estamos, contudo, hoje, reunidos, para dizer a José Calasans sobre a amizade que lhe dedicamos, sobre o nosso apreço e, em particular, sobre a nossa imensa gratidão por tudo que nos deu à Bahia, aos seus amigos, aos seus ex-alunos.

Maria Thetis Nunes, historiadora de Sergipe, também sua ex-aluna, ao escrever a apresentação da obra acima referida, afirmou que "o amigo é o grande facetamento humano de José Calasans"; e acrescentou que "poucas pessoas terão sua capacidade de fazer amigos e conservá-los". Disse certo. Muito certo mesmo. Principalmente com seu jeito manso de fazer amizades, o conversador José Calasans facilita a tarefa de estimar e se fazer estimado. Assim, quando lhe perguntaram, certa vez, como ocupava suas horas vagas, respondeu - "Gosto muito de conversar, bater papo". É isto aí, caro Mestre. Estamos conversando.

Discurso lido na Academia de Letras da Bahia em 29 de outubro de 1992, quando das homenagens aos 50 anos de vida literária de José Calasans. Publicado na Revista de Cultura da Bahia, nº19, 2001. O professor Waldir Freitas de Oliveira é historiador e membro da Academia de Letras da Bahia.