José Calasans por Walnice Nogueira Galvão PÁGINA PRINCIPAL | VOLTAR estante

TRIBUTO A JOSÉ CALASANS

Desde o contacto inicial, o que cativava no professor José Calasans era a fusão da cortesia – impecável – com a munificência da presença: o calor humano, o senso de humor, a afabilidade, a dicção claríssima acoplada à pachorra do discurso, a corpulência, e seus imensos olhos azuis.

Recebia em casa, no austero apartamento em que viveu a maior parte de sua vida, onde as novidades da moda e as manias do consumismo jamais tiveram acolhida. A hospitalidade nunca seria poupada, e ao visitante, além de simpatia, era servido um suco de frutas ou um sorvete, acompanhado de uma fatia de bolo; no fim de semana, se à noitinha, as empadinhas de que o professor era guloso. Dona Lúcia, discretamente presente, cumprimentava o visitante, fazia um pouco de sala e se retirava. Partilhava das características do professor, compondo o quadro de um lar harmonioso.

Depois de muitos anos se passarem, ao visitante era dada a honra de ter seu nome bordado. Sim, Dona Lúcia lhe pedia que apusesse sua assinatura numa toalha de mesa que – tarefa de Penélope – passou a vida a preparar. Em seguida, recamava com meadas de cor e com capricho as letras ali gravadas. Essa obra, da qual não conheço similar, constitui um documento de vida, de amizade e de carinho.

À mão, numa estante giratória que facilitava o acesso pelos quatro lados e que me despertava tanta reverência quanta cobiça, mantinham-se os itens mais valiosos de sua canudiana. Livros, folhetos, fascículos, cartas dentro de pastas, comprovavam a familiaridade pela maneira como eram compulsados, a ilustrar passos dos assuntos tratados naquele momento.

Os quais, se você por eles se interessasse, abriam as portas de todo um mundo. O professor não sonegava a ninguém seu tempo e seu saber, que era ilimitado. Se alguém quisesse trabalhar sobre Canudos e afins, não havia direção em que o professor não se desdobrasse para ajudar. Emprestava-lhe peças raras com o maior desprendimento. Dava outras de presente. Indicava em que bibliotecas públicas ou coleções privadas poderia encontrar o que procurava. Fornecia cópias de tudo o que precisasse. Apresentava-lhe, com o prestígio de seu nome que franqueava barreiras, as pessoas que lhe poderiam ser úteis. Dava-lhe sua escuta, entre todas preciosa. Finalmente, prestava-se à humilde faina, nem por isso menos exaustiva, de ler e corrigir seus trabalhos. Não há quem tenha privado do trato com o professor Calasans que dê testemunho diverso.

Tendo criado o Núcleo Sertão, no Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia, para ali transferiu seu acervo, de cerca de 4 mil peças e valor inestimável – único no gênero - , por ele reunido ao longo de toda uma vida de dedicação e pesquisa. Além de uma quantidade de obras de arte relacionadas a Canudos, com que era regularmente brindado. Isso se deu em 1983, mas desde então o professor não cessou de cumular de maravilhas aquele centro, que passou a ser uma das mecas dos estudiosos, acorridos do país e do exterior.

Falava horas a fio sobre o assunto predileto. Impressionava que ombreasse com tanta intimidade figuras do passado há muito desaparecidas, mas que, evidentemente, continuavam a ocupar suas reflexões. Admirava com sinceridade essas pessoas, mesmo que a algumas fizesse restrições. Praticante precursor da história oral, exercia-a com escrúpulo e espírito científico. Para ele, essa disciplina não equivalia a um convite aberto à mera transcrição sem maiores cuidados, delegando à fonte aquilo que é responsabilidade do historiador: a garantia da fidedignidade da informação. Por isso, submetia o que ouvia ao cotejo entre várias versões, bem como a um critério de rigor baseado na verificação a cada passo nos documentos. Viria a identificar-se a tal ponto com o território que o ocupou a vida inteira que antes personificava aquela história oral, era a voz que sintetizava tudo o que era possível saber sobre Canudos e seus habitantes, dotando-os de presentificação e perenidade.

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A renovação dos estudos sobre Canudos muito deve a sua liderança, por ação pessoal que os alçou a um patamar jamais anteriormente atingido. Oriundo de Sergipe, José Calasans foi professor de História na Universidade Federal da Bahia, onde ocupou cargos como o de diretor da Faculdade de Filosofia e o de Vice-reitor; mais tarde seria Professor Emérito. Muitas vezes condecorado, prestou variados serviços à causa da educação e da cultura, sendo inúmeras as instituições que apelaram para seus préstimos, entre elas a Academia de Letras da Bahia, de que foi presidente, assim como o foi de seu Conselho Estadual de Cultura. Em 1976 recebeu o grau de Comendador da Ordem do Mérito da Bahia, concedido pelo governador do Estado, seu Grão Mestre. Em 1999 a Assembléia Legislativa conferiu-lhe o título de Cidadão Baiano. E quando esta mesma Revista USP decidiu publicar em 1994 um Dossiê Canudos para celebrar a fundação do arraial cem anos antes, solicitando sua colaboração, com o maior desprendimento orientou e forneceu trabalhos seus, bem como preciosa documentação, tornando esse número um item bibliográfico1.Sua generosidade se aplicava em aceitar a presidência de toda iniciativa que lhe rogasse o prestígio do nome, tendo sido a última delas justamente a da Comissão do Centenário de Canudos, que se comemorou em 1997.

Também devemos a José Calasans o acesso a mais um manuscrito, por ele doado ao Núcleo Sertão. O manuscrito estava em seu poder desde 1972, quando a família de Aloísio de Carvalho, conhecido jornalista que foi diretor de O Diário de Notícias, senador e professor da Faculdade de Direito da Bahia, encontrou-o, por ocasião do inventário de seus bens, em Salvador. O exemplar acabou por ser entregue a quem mais fazia jus, ou seja, a José Calasans2, e é esse original que o Centro de Estudos Baianos ora traz a público em edição fac-similar. O líder religioso dispunha de um secretário ou escriba, por nome Leão Ramos, originário da vizinha vila de Natuba (depois Soure) e guarda-livros da casa de comércio dos irmãos Vilanova em Canudos3, que tomava ditado de suas cartas e ensinamentos. Por ora, enquanto se aguardam outros desenvolvimentos e o laudo de peritos, atribuem-se a seu punho estas anotações.

O manuscrito, um tanto danificado e por isso exigindo manuseio cuidadoso, depois de escaneado e editado fac-similarmente é agora posto à disposição daqueles que se dispuserem a contribuir para o aprofundamento destas investigações.

Logo no alto do verso da folha de guarda, consignam-se estas palavras: "Antonio Conselheiro infame bandido". Mais abaixo, lê-se o seguinte: "Oferecido pelo brigado 25 batalhão de infantaria Eugênio Carolino de Saião Carvalho achado em Canudos no lugar chamado Santuário ao Jornal de Notícias”.

O manuscrito consta de duas partes, conjugadas pela encadernação. A primeira vai das páginas 1 a 554, sucessivamente numeradas a mão. O exame decorrente de um mero folhear, mesmo que superficial, permite inferir que se trata de resumos dos Evangelhos, focalizando a trajetória de Jesus Cristo.

A segunda parte recomeça a partir de zero, estando numerada a mão das páginas 1 a 227. Nova folha de rosto traz uma outra autenticação, de natureza diferente da anterior. Ali se lê:

Apontamentos dos Preceitos
da Divina Lei de Nosso Senhor
Jesus Cristo, para a salvação
dos homens.

Pelo Peregrino
Antonio Vicente Mendes Maciel.
No Povoado do
Belo Monte, Província da
Bahia em 24 de maio de
1895.

Encerra-se por um índice intitulado “Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo”, que arrola com escrúpulo e meticulosidade as matérias contidas apenas na segunda parte. Ao contrário do que ocorre com a primeira parte, esta tem sua compreensão facilitada pela presença do índice, que permite acompanhar uma série de súmulas de sermões, começando com uma para cada um dos dez mandamentos. Passa-se depois a vários temas teológicos e doutrinários, como a cruz, a paixão de Cristo, a missa, as leis do culto divino, a justiça de Deus, a fé, a confissão, etc. Ou então glosam-se episódios do Velho Testamento relativos ao povo de Israel, como a narrativa de Adão e Eva, o dilúvio, as pragas do Egito, a travessia do mar Vermelho, o bezerro de ouro, a edificação do templo em Jerusalém, entre muitos outros.

O conjunto enfeixa as 554 páginas da primeira parte mais as 227 páginas da segunda, cada uma numerada de 1 a n. Anexo, vem o índice de 3 páginas não numeradas, atingindo o total pouco mais de 800 páginas, distribuídas por vários cadernos sem pauta. Uma vez costurados, em torno do aglomerado colocou-se uma capa geral de papelão revestido.


O OUTRO MANUSCRITO

Um quarto de século antes, Ataliba Nogueira publicara um livro de sermões de Antonio Conselheiro4, que pertencera a Euclides da Cunha, precedido de esclarecedor estudo. O volume fora igualmente encontrado no Santuário, em Canudos, no próprio dia em que o arraial esboroou-se em cinzas, segundo afiança na página que precede a folha de rosto aquele que o achou, em testemunho de próprio punho. Este, João (de Souza) Pondé, sextanista de Medicina, integrava o Batalhão Acadêmico, destinado a prestar socorros aos soldados feridos na campanha. Subseqüentemente doaria o livro a Afrânio Peixoto, seu colega de turma na Faculdade, que por sua vez o transferiria a Euclides da Cunha, poucos meses antes da morte deste. Perde-se de vista seu percurso, até a aquisição num sebo pelo escritor Aristeu Seixas, presidente da Academia Paulista de Letras. O manuscrito traz na folha de rosto o seguinte:

A presente obra mandou subscrever
o peregrino
Antonio Vicente Mendes Maciel
no povoado do
Belo Monte, província da Bahia
em 12 de janeiro de 1897.

Com base nesse exemplar totalizando 618 páginas, Ataliba Nogueira operou sua exegese. A contribuição é considerável, ainda mais pela chancela da autoridade de católico praticante e versado na doutrina de sua religião. E resultou em obliterar a partir daí a noção de um Antonio Conselheiro cismático - heterodoxo ou mesmo herético -, nada devendo estes sermões à ortodoxia eclesiástica. Acrescente-se que ali se ouve a voz de um sertanejo letrado, apesar de uma gramática por vezes claudicantem, sabendo expressar-se e formular seus argumentos.

O volume, análogo a este que ora apresentamos, subverteu o que se julgava saber5. Seu aparecimento em 1974 foi a primeira evidência de que eram equivocadas os pareceres tanto dos contemporâneos quanto dos pósteros que a respeito tinham escrito.

Ostentando o título barroco de Tempestades que se levantam no Coração de Maria por ocasião do mistério da Anunciação, o livro consta de uma primeira parte com 29 mistérios mariais, conforme o título indica, cada um ocupando uma prédica. A segunda parte traz dez sermões, dedicados aos dez mandamentos da lei de Deus; a terceira, textos das Escrituras Sagradas com comentários; e a quarta, prédicas de circunstância sobre a cruz, a missa, a confissão, o recebimento da chave da igreja de Santo Antonio, padroeiro do Belo Monte, etc. Seguem-se o famigerado sermão contra a República e a Despedida.

A teologia do Conselheiro que ali se expressa6 ressalta o papel de Maria na obra da salvação, graças a suas relações com Jesus Cristo, seu Filho e seu Deus: Jesus Cristo é o Redentor e a Igreja o único caminho para a salvação. Reconhecem-se nas grandes linhas os postulados da Contra-Reforma, estabelecidos inicialmente pelo Concílio de Trento e mais tarde reafirmados no Vaticano I, sem esquecer que o auge da devoção mariológica é atingido nos anos de Oitocentos. Decreta-se o dogma da Imaculada Concepção em 1854 e registram-se aparições miraculosas por toda parte, sendo a mais renomada a de Lourdes, na França, em 18587. O culto à Virgem seria difundido nos sertões nesse século, quando o líder espiritual mais destacado daquelas paragens, o padre cearense Ibiapina, até acrescentaria a seu nome o de Maria, recomendando aos fiéis que imitassem seu gesto.

Tem sido indicada como fonte mais imediata do Conselheiro a Missão abreviada, um sermonário popular oitocentista originário de Portugal e sancionado pela Igreja. Teve papel de relevo naqueles tempos e, largamente divulgado em nosso país, viria a se tornar um eficiente instrumento para o apostolado leigo, onipresente nas mãos de pregadores beatos. Estes sermões do Conselheiro adaptam a Missão abreviada, resumindo, explicitando, operando permutas e combinações de suas partes, mas deixando o modelo reconhecível8. Outras fontes já foram assinaladas, como o devocionário Horas marianas e as Práticas mandamentais9.

Descreve-se ali um universo hierarquizado, com cada um em seu lugar, apondo o beneplácito da religião à desigualdade e à opressão dos mais fracos pelos mais fortes. Teocracia e monarquia se completam: cabe ao Papa o comando da ordem espiritual assim como ao rei o da ordem temporal. A vida humana na Terra nada mais é do que um “ínterim” indispensável para a intervenção salvífica da redenção.

Configura-se assim um ideário conservador, que será corroborado em outros pontos. Acata-se a existência de ricos e pobres, cabendo aos primeiros dar assistência aos segundos por meio do exercício da caridade, que os segundos devem solicitar. A propriedade deve ser respeitada e o roubo proibido. Reconhece-se o direito divino dos reis, que reinam por sanção de Deus. A família é modelo do funcionamento universal, rei e Deus sendo análogos ao pai para com os filhos. Consideram-se judeus, maçons, protestantes e republicanos como os adversários da Igreja, sendo sua arma a pregação de falsas doutrinas. O Diabo está atento e para não se condenar à danação o homem deve praticar a ascese, a oração, a penitência.

Entretanto, num único ponto a pregação do Conselheiro destoa da posição conservadora, que recomenda manter a situação vigente mesmo quando injusta. Esse ponto é a escravidão, contra a qual se pronuncia com clareza, exaltando a princesa Isabel como benemérita dos cativos. E, como se sabe, grande parte de seu séquito era constituída por antigos escravos, os temíveis treze-de-maio, também conhecidos como carijés na região. O Conselheiro os acolhia e para eles pregava.


A HISTÓRIA ORAL E O OLHAR INTERNO

Divergindo, por sua natureza, do material fornecido pelos dois manuscritos, outro eixo de investigação igualmente acarreta sondagens da área por assim dizer interna. Nela se distinguiu José Calasans, a quem devemos a descoberta de tantos documentos,

Coube a ele a pioneira e definitiva incursão realizada pela história oral, quando, ainda nos anos 50, cometeu a façanha de entrevistar sobreviventes da guerra. Mereceram suas atenções não só os circunstantes anônimos mas figuras de prol, como por exemplo Pedrão - um dos cabecilhas e chefe de piquete no confronto bélico, membro da seleta dúzia que compunha a Guarda Católica, auxiliar direto de Antonio Conselheiro -, objeto de panegíricos por sua bravura em todos os testemunhos, sem excetuar o de Euclides da Cunha. Escreveria inúmeros trabalhos sobre facetas mais obscuras, como os inícios da peregrinação do líder místico; a composição de seu séquito; as igrejas e cemitérios que edificou ou reparou; os caminhos que palmilhou; as trajetórias pessoais dos principais canudenses; a poesia popular que se originou dos eventos de Canudos; a etimologia da palavra jagunço, etc., etc., etc.

Como se sabe, após a degola dos prisioneiros válidos e a distribuição de mulheres e crianças que restavam, Canudos, arrasada pelo canhoneio e pelas chamas, se esvaziou. Mas aos poucos alguns sobreviventes foram retornando e se reinstalando, mesmo que precariamente. Nos anos de 1930, os trabalhadores que labutavam na abertura da estrada Transnordestina, cujo traçado por ali passava, foram se assentando no local. Seguiu-se a construção do vasto açude de Cocorobó pelo Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca - futuramente Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (IFOCS, depois DNOCS) -, quando o povoamento se intensificou graças às novas levas de mão-de-obra. Guardou-se por ali a lembrança de que teria sido Getúlio Vargas, visitando a região nos anos 40, que prometera a providência tão necessária. A represa aproveitou a depressão constituída pelo desfiladeiro ou garganta quase inexpugnável – o passo de Cocorobó - onde um dos mais renhidos combates da campanha se travara.

Foi por ocasião do cinqüentenário do fim da guerra, celebrado em 1947, que Odorico Tavares, jornalista pernambucano radicado na Bahia, publicou na revista O Cruzeiro, do Rio, uma matéria feita no local e ilustrada com fotos clicadas por um jovem fotógrafo francês, Pierre Verger. Ainda conseguiu entrevistar antigos conselheiristas, como Francisca Macambira, filha do importante chefe canudense Joaquim Macambira, Maria Avelina da Silva, Mariano, Francisca Guilhermina dos Santos, José Travessia, filho de um combatente que tombou ao lado de João Abade, Manuel Ciriaco, Francisco Cardoso de Macedo, Maria Guilhermina de Jesus, Idalina Maria da Conceição.

Nas pegadas de Odorico Tavares seguiria José Calasans, cuja atenção fora despertada pela reportagem. À época, o historiador se especializava em folclore e estava justamente teminando sua tese, intitulada O ciclo folclórico do Bom Jesus Conselheiro10, na qual recolheu e analisou uma farta safra temática. Calasans efetuaria a partir de 1950 várias viagens à região, nas quais anotaria depoimentos11, acrescentando aos que o jornalista tomara vários outros, entre eles os de Pedrão – privilegiado, por provir de um dos maiorais –, de José Ciriaco, que tal como seu irmão Manuel Ciriaco fora combatente, de Ioiô da Professora e do filho do sineiro Timotinho. Este fazia soar as badaladas ao entardecer, sem falhar um dia, para escarmento das tropas, que o alvejavam em revide, até sineiro e sino perecerem quando o canhoneio derrubou a torre da Igreja Velha. Pedrão encontraria em Calasans, com quem conversou muitas vezes, um admirador, pois, apesar de entrevado e sem locomoçào, continuava indômito, dizendo de si mesmo: “Faz pena um homem como eu morrer sentado...”

Desse modo, José Calasans fincaria o padrão de um movimento renovador dos estudos sobre Canudos, procurando ventilar outros ângulos, que no processo tinham ficado obscurecidos pelo brilho de Os sertões. Ao longo dos anos, como vimos, o próprio historiador foi publicando um sem-número de trabalhos, esclarecendo gradativamente vários pontos sobre os quais pouco se sabia. Dentre esses – não custa repetir - tudo aquilo que se refere à vida pregressa de Antonio Conselheiro; os anos de peregrinação e a constituição do séquito; seu papel como líder de mutirões para edificação ou reparação de igrejas, cemitérios e açudes; as histórias de vida das principais personagens do arraial e da guerra; a ambigüidade da posição da Igreja, cuja tomada de partido seria decisiva para a destruição do arraial. Tudo isso - sem esquecer o ponto de origem que foi a prática antecipada da história oral e do cotidiano, bem como o realce devotado à crônica dos vencidos - viria contribuir para aos poucos mudar o caráter dos estudos.

Tornou-se obsoleta a hipótese de uma loucura coletiva que se apoderara de Antonio Conselheiro e contagiara seus adeptos12, interpretação que predominara durante um bom tempo mas acabou por cair em descrédito. O que ali ocorrera não era da ordem do patológico, que implicaria em desorganização da vida no arraial, mas ao contrário uma “desesperada tentativa no sentido de uma nova organização social”13. Clichês pejorativos como os de “fanáticos” e “jagunços” tenderam a desaparecer.

As pesquisas passaram a se voltar para fontes pouco exploradas, como as reportagens feitas pelos enviados especiais ao palco dos acontecimentos; o noticiário dos periódicos; os livros escritos pelos participantes da guerra, sobretudo combatentes; as ordens-do-dia e outros documentos militares; os relatórios do governo estadual e federal; as atas parlamentares; as cartas trocadas entre a Arquidiocese e os vigários sertanejos; as prédicas do Conselheiro; os arquivos militares locais, até então secretos14 - feito que devemos a Renato Ferraz, quando capitaneava o novo Centro de Estudos Euclides da Cunha, da Universidade Estadual da Bahia, criado em 1984; a correspondência do barão de Jeremoabo; e assim por diante..

A partir de 1969, terminada a barragem e ante as águas que subiam, os moradores foram obrigados a deixar Canudos, instalando-se à margem do açude de Cocorobó, num povoado que com o tempo adotaria o nome de Nova Canudos. Em 25 de fevereiro de 1985, a Lei Estadual nº 4.404 criou o município de Canudos, desmembrando-o do antigo Cumbe (hoje Euclides da Cunha). E em 30 de junho de 1986 instaurou-se pelo Decreto 33.333 o Parque Estadual de Canudos, gerido conjuntamente pela Universidade do Estado da Bahia e pela Secretaria de Educação e Cultura. Compreendendo várias instituições e recursos, o parque deverá contar com um museu, um laboratório de arqueologia, uma estação de agronomia e outra de meteorologia, tudo isso convergindo para o objetivo de preservar a área do ponto de vista ecológico, arqueológico, científico, histórico e educacional15.

Várias campanhas de escavações procederam à prospecção e levantamento de trincheiras, fortificações, cemitérios, material bélico, ossadas, utensílios e restos domésticos, operando o resgate da Fazenda Velha e da Igreja Velha, submetidas a medições e fotos. Esperam-se dessa nova frente de pesquisa aberta pela arqueologia ainda muitas outras revelações.

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Dos dois livros de sermões, o presente datado de 24 de maio de 1895 e aquele já publicado de 12 de janeiro de 1897, emerge o austero perfil de um asceta. Sabe-se que sua grei o identificava como o Bom Jesus Conselheiro. No entanto, nestes textos que, ao que tudo indica, emanam diretamente de sua pregação, nada há nesse sentido. O Conselheiro em nenhum momento se declara santo ou divindade. Aos dois manuscritos se apõem seu nome batismal completo – Antonio Vicente Mendes Maciel, filho que era de Vicente Maciel e neto de Antonio Maciel -, e o humilde epíteto, único que se arroga, de “o Peregrino”. Tampouco se faz passar por Dom Sebastião, mesmo que as alusões sebastianistas sejam frequentes nos folhetos encontrados no arraial e na poesia popular. E nem sequer ali se encontram as promessas extravagantes que lhe atribuíram e que garantiriam a ressurreição a quem por ele se imolasse.

Quanto à relevância desta edição, que descortina um novo campo aos interessados, nem é preciso insistir. Pode-se cogitar em submeter à exegese o conteúdo destes sermões, proceder ao estabelecimento de sua doutrina e pronunciar-se sobre sua ortodoxia. A caligrafia deverá ser sujeita a perícia. E o cotejo com o sermonário já publicado virá enriquecer a discussão acerca da autenticidade de ambos16, levando-se em conta as coincidências e as variantes. Será possível decidir se são peças complementares ou alternativas, elucidando as razões de um dos livros ser mariológico e o outro cristológico, o que permitirá compreender melhor o pensamento de Antonio Conselheiro.

É a edição fac-similar deste manuscrito, cuja importância e oportunidade não poderíamos enfatizar mais, que viemos aqui apresentar. Confluindo para o melhor conhecimento dos eventos de Canudos, esta contribuição vem-se agregar aos eixos mais recentes, representados pela história oral e pela arqueologia. Destacando-se por seu caráter único, os dois manuscritos do Conselheiro, um deles já bastante analisado e este inédito, ora publicado por iniciativa de Fernando da Rocha Peres, diretor do Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia, presidirão – são nossos votos - a toda uma linhagem de novos estudos.

1 Revista USP – Dossiê Canudos, No. 20, dez./jan./fev. 1993-1994.
2 José Calasans, “Canudos não euclidiano”, em Cartografia de Canudos, Conselho Estadual de Cultura, Salvador, 1997.
3 Id., Quase biografias de jagunços, Salvador, Ufba, 1986.
4 Ataliba Nogueira, Antonio Conselheiro e Canudos, São Paulo, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1974.
5 Ataliba Nogueira, Antonio Conselheiro e Canudos, op cit.
6 José Luiz Fiorin, A ilusão da liberdade discursiva – Uma análise das prédicas de Antonio Conselheiro, Dissertação de Mestrado (polic.), USP, 1980 e “O discurso de Antonio Conselheiro”, Religião e sociedade, No. 5, junho de 1980. F. Benjamim de Souza Netto, “Antonio Conselheiro e Canudos : resenha bibliográfica”, Simpósio, Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos, São Paulo, No. 13, agosto de 1975. Duglas Teixeira Monteiro, “Um confronto entre Canudos, Juazeiro e Contestado”, em História geral da civilização brasileira, III, O Brasil republicano, 2 - Sociedade e instituições, São Paulo, Difel, 1978, 2ª ed.
7 Só em 1950 o ciclo se completaria, com a Assunção da Virgem, ou subida aos céus de corpo presente, tornada dogma.
8 V. de José Luiz Fiorin os dois trabalhos citados.
9 Ataliba Nogueira, op. cit.
10 José Calasans, O ciclo folclórico do Bom Jesus Conselheiro, Bahia, Tipografia Beneditina, 1950.
11 Calasans, um depoimento para a história, Marco Antonio Villa e José Carlos da Costa Pinheiro (Orgs.), Salvador, Centro de Estudos Euclides da Cunha, Uneb, 1998.
12 Nina Rodrigues, A loucura epidêmica de Canudos – Antonio Conselheiro e os jagunços, Rio de Janeiro, Revista Brasileira, 1897.
13 Antonio Candido, “Euclides da Cunha sociólogo”, Remate de Males, Antonio Candido – Número Especial, Campinas, Unicamp, 1999. (Republicação de O Estado de S.Paulo, 13 dez. 1952).
14 Índice remissivo – Documentação histórica sobre Canudos, Bahia, Centro de Estudos Euclides da Cunha, Uneb, 1996.
15 Edivaldo M. Boaventura, “Parque Estadual de Canudos: criação e evolução”, Revista Canudos, Ano 1, No. 1, Centro de Estudos Euclides da Cunha, UNEB, dezembro de 1996.
16 José Calasans, Canudos não euclidiano, op. cit.

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita de teoria literária e literatura comparada da Universidade de São Paulo. É autora do livro No Calor da Hora, a Guerra de Canudos no Jornais.